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SOBRE MIM

Eu sou carioca e um bicho do Rio. Nasci na Cidade Maravilhosa, onde sempre vivi. Ou, por curtos períodos de tempo, ora em Niterói, ora num sítio, na RJ 116; mas sempre trabalhando no Rio e indo para lá, no começo, até para cortar os cabelos.

Cursei o primeiro e o segundo graus no Colégio Pedro II, sem jamais ter prestado concurso: fui convidado a estudar no Imperial Colégio. No primário, havia pulado um ano letivo e causado certo espanto a professores, alfabetizando-me muito rapidamente e, pouco depois, escrevendo redações incomuns para uma criança.

No meu aniversário de onze anos, recebi de presente uma coleção sobre Mitologia Grega em três volumes. Meu pai tinha vários livros sobre mito grego que despertaram a minha paixão, de sorte que, aos doze, poderia responder a respeito num programa de televisão daqueles que eram populares na época. E não constitui exagero ou afetação alguma afirmar que a visão de mundo dos helenos do período anteclássico foi um dos pilares da minha formação como pessoa, desde a infância.  

 

Lembro-me das duas primeiras coisas que manifestei desejo de ser na vida. A primeira eu já pensava que fosse de verdade aos sete ou oito anos de idade: comunista. A outra manifestação veio como resposta à pergunta clichê "o que você quer ser quando crescer". E a resposta foi: "general, como o meu avô".

 

Estávamos nos anos setenta. Generais apareciam nos noticiários agredindo jornalistas. Entanto as duas idéias não eram realmente tão discrepantes entre si como possam parecer à primeira vista.

 

Meu avô, Frederico Buys, foi aquele militar que, sublevando o seu regimento, sitiou a casa do comandante e tomou a Vila Militar, durante o movimento dos tenentes, no Rio de Janeiro, então, capital federal. Luís Carlos Prestes o menciona na última palestra que deu, pouco antes de falecer, como alguém que poderia ter ajudado a mudar o rumo do País naquele tempo. Através de Prestes, nós, da família, ficamos sabendo que meu avô só não partiu com a Coluna Prestes, porque sua mãe estava acamada, vindo, inclusive, a falecer. A gravação da palestra em questão se encontra no centro de memória da Associação de Engenheiros Ferroviários, ligada ao PT, onde se realizou.

 

Meu avô passara quatro anos preso pela morte do comandante da Vila Militar, até ser inocentado, caso descrito num dos volumes da publicação Os Grandes Julgamentos do Supremo Tribunal Federal. Depois disso, integrou a equipe do adido militar em França. Outro livro chega a citá-lo como "presidenciável", em dado momento da História nacional.

Seu pai, meu bisavô, Christiano Buys, também fora militar e um ídolo no Exército. No momento em que Deodoro proclamava a República no Rio, ele, que tinha marchado desde o Sul para isso, proclamava-a, concomitantemente, na Bahia [aqui cabe uma adenda: alguém que fez contato comigo pela ferramenta de contatos do saite nos últimos anos me disse que meu bisavô trabalhava em Salvador quando da proclamação da República, sendo comandante de uma unidade militar na Bahia, o que transformaria a história da marcha do Sul a este estado num mito familiar]. Dá nome a, pelo menos, uma rua importante de Salvador. E em que pese a Proclamação ser considerada por alguns um golpe militar, o republicanismo era a posição mais progressista dentro daquela conjuntura, vale ressaltar. [Outra adenda: além disso, meu bisavô teria agido em adesão ao levante popular republicano, apoiando-o, pois "Augusto Alves Guimarães, Presidente do Conselho Municipal, e o Marechal Hermes Ernesto da Fonseca, Comandante das Armas da Província e irmão do proclamador da República, resolveram manter a Bahia fiel à monarquia. A população republicana se revoltou e foi apoiada pela guarnição do Forte de São Pedro e por seu Comandante, o Coronel Frederico Cristiano Buys.", conforme fonte].

Meu pai, que foi comunista na mocidade, tinha tido a sua formação básica no Colégio Militar. Não quis seguir carreira, mas pôde me entender bastante bem. Já a senhora minha mãe, que chegara a esconder dinheiro da resistência ao regime em casa, entre outros riscos que correra, esta não tinha a mínima reserva para milicos vocacionados desde a infância. O que, convenhamos, era compreensível.

Os Buys foram nobres e militares, literalmente, durante séculos. Eram holandeses e vieram para o Brasil com a corte portuguesa, em 1812 [ou a partir dessa data], fugindo de Napoleão Bonaparte, que já tinha subjugado quase toda a Europa. 

Segundo um tio meu, Rogério Buys, psicólogo e acadêmico respeitado pelo próprio Carl Rogers, fundador da linha com que trabalhava [em visita ao Brasil nos anos de chumbo, Carl Rogers declarou que, se fosse o caso de eleger um representante no País, escolheria Rogério], os Buys teriam um problema sério em relação à nobreza perdida. Problema esse que eu deveria procurar desvendar em mim mesmo e contornar. Eu tentei, graças a ele. Só não sei se fui de todo feliz na tentativa. Em suas palavras, teríamos a impressão prejudicial de que, em função das origens, "não precisamos fazer nada para sermos importantes". Mencionava não só a nossa ascendência holandesa, mas também a escocesa, que a ele impressionava bem mais do que a mim [in addendum: o que me fora passado sobre uma herança espiritual dos Buys dizia respeito muito mais a supostas aptidões atávicas do que aos vultos da família; e, quando se fale em vultos, estavam muito mais presentes os nossos ancestrais brasileiros recentes que os holandeses, embora sempre me tenha seduzido deveras a noção de família como estirpe, e não apenas como grupo de pessoas que, eventualmente, ceiam juntas no Ano Bom para fomarem a célula mater de algo — v. Paulus Buys; v. Willem Buys; v. Willem Berend Buys; v. Johannes Theodorus Buys]. E me contou a seguinte história, como se eu a pudesse desconhecer. Enquanto estivera preso na Ilha Grande, não no presídio sobre que todos já ouviram falar, em Dois Rios, mas num pequeno prédio sito na Praia Preta, o qual, então, se resumia a instalações hospitalares dignas, meu avô, que caminhava livremente por aquele dito paraíso tropical e lia muito, conheceu uma bela ilhoa descendente de escoceses com quem viria a se casar. Minha avó, Zélia Mac-Cormick (com hífen na certidão do meu pai), tinha por trisavô Thomas Henry MacCormick, ou, como chamava a si mesmo, Tomás Henrique: alguém tão interessante como um corsário, i.e., um pirata com uma carta de autorização da coroa britânica para abordar navios estrangeiros, sobretudo, espanhóis, creio. Aportou numa parte, segundo Rogério, triste, mas militarmente estratégica da Ilha, hoje chamada Longa, onde fundou seu próprio reino. Figura incrivelmente livresca, Tomás Henrique teria trazido muitos escravos no seu navio de madeira e cultivaria o hábito de pendurar cabeças humanas em mastros para o deleite alvoroçado das aves marinhas... Teve o bom gosto de dar a seu filho o nome de Pedro Henrique, ao invés de Peter Henry. Meu tio Rogério, que contraiu poliomielite na infância, sempre buscou autossuperação; foi um esforçado acadêmico e um profissional de brilho passado em julgado.

Meu irmão mais novo, entomólogo, é outro acadêmico compenetrado, tendo adquirido o pós-doutorado sênior bem precocemente, creio que por volta dos trinta e oito. [Post scriptum: Meu pai dizia que "o homem que descobriu a rosa dos ventos" era um holandês e tinha o nosso nome; mais tarde, acrescentei que esse foi o grande poeta da família — v. C. H. D. Buys Ballot].

Já eu comecei a cursar, tardia e concomitantemente, aos vinte e poucos anos, os bacharelados em Filosofia, pela UERJ, e em Ciências Jurídicas, pela Faculdade Brasileira. Tinha passado por um período de indecisão em relação a que a família foi excessivamente indulgente. Em pouco tempo na universidade, tornei-me membro do DCE-UERJ e encarregado do contato entre a estudantada e o MTST. Meti-me, no meio da noite, por assentamento onde havia violência policial gravíssima e sérios riscos. A experiência duraria pouco, mas nunca deixei de considerá-la parte importante da minha formação. Era filiado ao PT, então. Mas consegui, sozinho e isolado, uma "chapa de coligação" com o PSTU, que aparelhara o DCE, numa polêmica assembléia em que fui aclamado e prejudiquei os interesses da dita Tendência do Chico, hoje, PSOL.

Quiseram até me bater os futuros psolistas, sem saber que eu treinara Jiu-Jitsu na Academia Gracie e outras e Boxe Tailandês na não menos temida JOP, com Júnior, China.

Gostei muito de articular com o pessoal da Convergência (PSTU); são muito organizados e uma espécie de partido-escola. Ao lado deles, participei de verdadeiras ações de guerrilha urbana, como a invasão do CPII, unidade São Cristóvão, para boicotar o provão de fim de curso. Fui o primeiro a conseguir entrar. E estava à porta de uma das salas, quando Lindberg Farias, naqueles dias, jovem deputado federal pelo PCdoB, oriundo do Movimento Estudantil, tomou com energia as provas das mãos de uma fiscal, que chegou a tropeçar, e as distribuiu para dois ou três de nós. Fui entrando pelas salas adentro para avisar que o exame tinha vazado; lia em voz alta as questões para atestar o fato. Em minutos, toda a PMERJ parecia estar entre nós, enquanto a massa de estudantes descia já as escadas. Entanto não houve truculência policial nessa ocasião. E nem provão de fim de curso, é claro.

Interrompi bruscamente a minha militância no ME, quando fui chamado pela Justiça Federal de Primeira Instância da Segunda Região para investidura no serviço público, em 1997.

Decidi prestar concurso público, por mais incrível que possa soar isso nos dias de hoje, docemente inspirado, como jovem, em Carlos Drummond de Andrade: o Poeta Maior mencionava amiúde o fato de ser servidor público... Levar as minhas poesias de juventude para Drummond ler foi um projeto de adolescência que malogrou em 17 de agosto de 1987, data tão musical como desoladora para mim.

Em 2002, fui viver em Pendotiba, Niterói, com uma mulher mais velha que eu e de condição financeira mais alta, deixando a Barra da Tijuca, onde morava, antes dessa união.

Tinha já publicado um primeiro livro de poesias, titulado Manelo de Áscuas, em 1999. O livro inaugurava uma forma em poesia a que chamei — acróstico ideográfico.

Estive na ativa como funcionário público por oito anos. Quatro dos quais, pelas minhas contas, passei em fruição de licença médica por motivos que não posso divulgar: constituem assunto sigiloso da Administração Judiciária. Ainda assim, se me concedeu, com apenas um ano de casa, a segunda mais alta função comissionada na hierarquia do Judiciário na primeira instância: a de Oficial de Gabinete da 25a. Vara Federal Criminal, mais tarde extinta.

Atualmente, faço parte do quadro de servidores inativos da Justiça Federal e vivo na Ilha Grande, Angra dos Reis, dedicando-me integralmente ao mister de escritor, à reflexão e à poesia.

Em meio à paixão intensamente apolineo-dionisíaca dos meus dias, emergem tanto a minha poesia formal, disposta em versos, como a minha poesia material, acomodada em ensaios e notas esparsas — como me habituei a designá-las —, os quais encerram uma via sistêmica de apreensão da totalidade e da vida pautada na suposição, i.e, na criação, na poiesis, e não no racionalismo dedutivo e logicista, que tem origem nos socráticos.

O ceticismo é uma das minhas atitudes constantes perante a existência. E, para terminar isto em termos idealísticos, devo dizer que me considero herdeiro dos físicos-poetas da Hélade anteclássica, tal como Nietzsche e Hölderlin, e, numa certa medida, um neokantiano disposto a combater em mim o Homo Demens (Sócrates) e seus resíduos identificáveis para ousar saber e constituir verdades que tenham por norte os interesses patrióticos e progressistas. Assumo nesse mister uma postura intelectual que pretendo: romântico-realista: atenta, na mesma medida, à idealidade do mundo, de um lado, e, de outro, à apreensão do em-si das coisas no único âmbito onde se o pode tanger: aqui, no tópos habitado pelo Eu profundo, cuja intuição pode ser dita uma — partícula: o fantasma cinestésico, ou proprioceptivo, do eu (absoluto).

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